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julho 29, 2012 Falando de Chico Anes // Entrevista // Interrogações // Novo Conceito

Interrogações: Entrevista com o autor Chico Anes


Estava querendo algum tempo atrás inserir entrevistas no blog e a partir de hoje as teremos. Nosso primeiro entrevistado é o autor de “O Sonho de Eva” e “Pirapato, o menino sem alma”, Chico Anes.
Antes de tudo, gostaria de agradecer a oportunidade de entrevistá-lo. Fiquei muito feliz em receber uma resposta aceitando a entrevista. Então, vamos começar?
1- Chico, em que momento da sua vida você resolveu ser escritor? Qual foi sua maior motivação?
Os livros sempre estiveram presentes em minha vida. Venho de uma família que fez questão de deixar suas crianças bem perto de obras clássicas e de enciclopédias e mais enciclopédias. Isso, sem dúvida, me deu muitas das ferramentas que uso hoje para escrever. Apesar de ter me formado em engenharia, onde a matemática predomina, nunca deixei de escrever contos e poesias… (bem, aqui peço uma licencinha… “Poesia” não é a palavra certa para aquelas linhas adolescentes, mas não há outra palavra menos abusada que ela). Minha motivação? Sem dúvida os grandes autores que li.
2- Ao conhecer um pouco mais sobre você, descobri que já possuía um livro publicado, “Pirapato, o menino sem alma”. Se compararmos com a divulgação que “O Sonho de Eva” teve, seu primeiro livro teve menos repercussão que o segundo. Você acha que isso tem algum motivo específico?
Pirapato foi um livro que eu mesmo publiquei e distribuí para os amigos. Além disso, o livro foi vendido basicamente pelo site da editora e alguns poucos outros. Apesar de eu achar a história do “menino sem alma” muito legal, eu escrevi o livro sem me preocupar com algumas técnicas que tornam um thriller mais “turbinado”. Já o Sonho de Eva foi escrito seguindo estruturas internacionalmente aceitas e usadas para a composição de thrillers. Estudei essas técnicas por um ano com um tutor internacional, o que fez com que a obra alcançasse maior divulgação. E, claro, o trabalho de uma editora da envergadura da Novo Conceito faz toda a diferença no diz respeito a repercussão de um livro.
3- Como foi o processo de criação de “O Sonho de Eva”? E o de “Pirapato, o menino sem alma”? Você acha que mudou muito seu pensamento e/ou alguma coisa em sua visão de mundo de um livro para outro?
Escrevi Pirapato como uma experiência onde usei muitos elementos de alquimia e xamanismo para compor a trama. Por exemplo, toda a caminhada de Pirapato pelo reino fictício de Cávea segue as linhas do desenho do eneagrama, e cada personagem que ele encontra representa as personalidades típicas de cada ponto do eneagrama. O eneagrama foi trazido para o Ocidente pelo místico Gurdjieff, após anos de peregrinação pelo Oriente. Ele descreve nove padrões de comportamento e seus diferentes níveis de consciência, ou seja, Pirapato, na “busca” por sua alma, alegoricamente caminha sobre uma ferramenta mística. Todos obstáculos com quais Pirapato é confrontado são na verdade exercícios xamânicos ou alquímicos que visam o crescimento pessoal e espiritual; a senda de Pirapato é em todos os seus aspectos que a constituem um caminho místico. Outro detalhe: todos os nomes dos personagens derivam de pássaros, que também tem um significado simbólico. Poderia encher tranquilamente um par de folhas com as alegorias com as quais compus o livro. Pirapato foi uma história que eu precisa escrever, meu ensaio atemporal. Depois dele vi que contar histórias é uma grande paixão. Já “O sonho de Eva” começou com minhas experiências pessoais com sonhos lúcidos. Depois de praticar e estudar as técnicas para sonhar e ficar consciente enquanto se sonha, vi que o potencial para uma história era grande; tanto pelo fato de ser fantástica a possibilidade de controlar os sonhos, quanto pelo assunto ser muito pouco explorado na literatura. Também construí a história usando alegorias mitológicas. Por exemplo: para criar Eva, usei a referência bíblica: a queda do paraíso, o trauma pessoal que a expulsou da inocência, a redenção pela aceitação de sua personalidade e de seu destino, a serpente como elemento recorrente no sonho e conselheira íntima. Adhya é uma Eva ao contrário, com as características morais opostas à formação rígida de Eva. Adhya é um nome de origem hindu que significa “primeiro poder” ou “o começo”. Protagonista e antagonista como lados contrários de uma mesma mitologia. Usar alegorias mitológicas e conhecimentos alquímicos é uma coisa que eu adoro fazer quando estou construindo um livro, ou mesmo apenas um conto.
4- Lendo “O Sonho de Eva” podemos ver diversos elementos relacionados à teorias da conspiração. Você realmente acredita nessas teorias? Se sim, qual a mais evidente para você?
Acredito em algumas sim. O ato de conspirar, tramar, maquinar, está presente em vários momentos da história da humanidade e, guardando as proporções, na vida do homem comum também. Uma dessas combinações de teoria da conspiração e sociedade secreta que muito me impressionou pelo estrago que fez no mundo foi a influência da sociedade Vrill no Governo Alemão da Segunda Grande Guerra, uma combinação de nazismo com ocultismo com resultados que todos conhecemos.
5- Por que decidiu escrever um livro onde os sonhos lúcidos fazem parte do tema central da trama? Você acredita que possamos desenvolver esta técnica de sonhar lucidamente?
Não só acredito como pratiquei e desenvolvi a técnica. Para isso estudei as pesquisas do Dr. Stephen LaBerge, descritas no livro “Sonhos Lúcidos”. O Dr. LaBerge fez inúmeros experimentos e pesquisas sobre sonhos lúcidos para a conclusão de seu Ph.D. em Psicofisiologia na Universidade Stanford. O livro é muito bom e didático. Depois dele vários outros autores desenvolveram e apresentaram técnicas para ajudar o sonhador a ficar consciente enquanto sonha. E foi esse universo fantástico e pouco conhecido que me levou a criar uma trama envolvendo sonhos, jogos e teorias da conspiração…
6- Hoje em dia estamos vendo diversos livros que tratam de distopias. Indiretamente seu livro tem quase uma linha distópica, onde existe um grupo de pessoas querendo dominar os “mais fracos” através dos sonhos. O que você acha desta nova onda literária do momento?
Tecnologias como ferramentas de controle, governos totalitaristas e corruptos, convenções sociais rasgadas, o mundo como um lugar ruim para se viver, etc… Ondas artísticas podem refletir medos inconscientes… Será que a grande foto do panorama mundial atual não está criando em nosso inconsciente um receio externalizado em ficções distópicas?
7- Em “O Sonho de Eva”, você cita Benjamin Libet, um pesquisador sobre a relação entre os eventos neurais e a consciência, numa conversa entre Eva e Adhya, onde a própria Eva destaca que “não passamos de marionetes que têm suas cordinhas manipuladas”. Você acredita que possamos estar sendo manipulados por alguém ou alguma coisa?
Benjamin Libet foi um gênio. Seus experimentos no campo da consciência são no mínimo instigantes. A Dra. Susan Blackmore, enquanto palestrava na Universidade West of England disse: “Muitos filósofos e cientistas têm argumentado que o livre arbítrio é uma ilusão. Diferente deles, Benjamin Libet descobriu uma maneira de testá-lo.” Agora, se há alguém ou algo manipulando nosso livre arbítrio? Digo que a mecânica quântica nos levou a fazer uma revisão profunda em nosso conceito de realidade, e a cada novo degrau escalado pela ciência, nós nos surpreendemos com uma descoberta que antes parecia coisa ficção científica. No estudo da consciência precisamos subir mais alguns degraus, e em cada deles pode acreditar: vamos dizer um sonoro “UAU”!
8- Seu segundo livro possui partes em território nacional, mais especificamente em São Paulo. Por que você não utilizou Barbacena, sua cidade natal, como pano de fundo?
Para a história de Eva achei que ficaria melhor o cenário de uma grande cidade, cosmopolita, onde cultura, negócios e experiências científicas de ponta se encontrassem. Mas pode ficar tranquila que Barbacena está em meus planos como um futuro cenário… Ah, se está!
9- Ao ler uma resenha sobre seu primeiro livro e também sua biografia, vi que a Alquimia é muito presente em ambos. Você realmente acredita nesta ciência? Por quê?
A Alquimia, numa definição bastante curta, é uma prática antiga que mistura química, astrologia, magia, filosofia, etc. Eu estudo a parte da alquimia que está voltada para a personalidade, a vontade, a alma. Um dos trabalhos alquímicos é a transmutação do chumbo em ouro, e uma leitura que você pode fazer disso é: Transformar o homem com espírito de chumbo em um homem com espírito de ouro. Um livro chamado Caibalion diz: “A verdadeira transmutaçãoo hermética é uma arte mental”. É nessa alquimia que eu acredito.
10- Hoje temos visto muitas obras nacionais sendo lançadas e os leitores estão mais abertos e receptivos à elas. O que você acha disso?
Um bom momento da literatura nacional! Uma conjunção de boas histórias, editoras dispostas a investir no material nacional, e leitores cada vez mais bem informados, exigentes e inteligentes, que sabem identificar boas obras, e que tem consciência de ser um absurdo a ideia de que só estrangeiros sabem escrever boas histórias. Junta-se a isso o trabalho de blogs como este, que se dedicam a cultivar o hábito da leitura e o amor por livros; blogs que cedem um espaço importante para a divulgação dos novos autores. Um grande momento!
11- Você está trabalhando em um terceiro livro, qual é sua inspiração para desenvolvê-lo? E quando estará pronto?
Estou sim. Nesse próximo livro estou tratando dos sentidos. Meu projeto é terminar o livro até o final do ano e então passar para inevitáveis releituras e revisões.
12- Uma mensagem para seus leitores e futuros leitores:
Quero agradecer ao blog por esse espaço! O trabalho de vocês é essencial neste momento da literatura nacional. Como mensagem aos leitores posso afirmar: cada vez que pegarem um livro meu, e investirem o tempo precioso de suas vidas na leitura da história, podem ter a certeza que cada linha foi pensada e escrita com muito carinho e respeito. Tempo é algo que só se paga com tempo. Sempre buscarei utilizar o tempo na confecção da história tendo em mente o respeito pelo tempo do meu leitor. E como sempre digo, viva os leitores, pois vocês são os guias que caminham em frente à multidão, portando livros como lanternas e iluminando o corredor maravilhoso da vida. Obrigado!

Chico, mais uma vez agradeço pela oportunidade que você me deu. E depois de ler suas respostas, fiquei ainda mais curiosa em relação aos sonhos lúcidos, além de ser algo muito interessante, é possível alcançá-los.

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