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março 03, 2013 Falando de Conto // Projeto // Projeto Machado de Assis

Projeto Machado de Assis – A Chinela Turca


Machado de Assis é, por si só, um escritor que não precisa de apresentações. Da mesma forma que muitos amam a forma que ele escreve e cria, outros odeiam proporcionalmente. Minha paixão pelo Bruxo do Cosme Velho se fez presente a partir do momento que percebi que ele permite que sejamos co-autores de suas obras, sem perder o caminho traçado, a partir de seus “vazios”. E em A Chinela Turca encontramos, além da interatividade, a relação entre realidade e sonho.

O ano é 1850 e estamos no Catumbi, bairro do Rio de Janeiro, onde o bacharel Duarte recebe a visita, tarde da noite, do major Lopes Alves, velho amigo da família, o que o faz estremecer por dois motivos: primeiro porque era o major, o mais medonho sujeito; e o segundo era que ele se preparava para ver Cecília, a mulher dos mais finos cabelos louros e os mais pensativos olhos azuis, em um baile. O lado bom da visita era que o major era parente de sua amada, um voto seguro, caso precisasse. Entretanto, o major vem avisá-lo que acabara de escrever um drama, proveniente de um “ataque literário”, que acaba até considerando como doença, e gostaria que o bacharel analisasse o trabalho de forma franca.

O drama era dividido em sete quadros, com apenas cento e oitenta páginas. Duarte constatou que não havia nada de novo e o major expressara apenas suas lembranças. Chegando ao segundo quadro, o bacharel percebe que já eram onze horas e não conseguiria mais ir ao baile que veria Cecília. Tomado pela cólera de tal fato e pelo sentimento que “um mau livro é capaz de produzir”, Duarte e o leitor começam a viver o imaginário da obra.

…enquanto aos olhos carnais do bacharel aparecia em toda a sua espessura a grenha de Lopo Alves, fugiam-lhe ao espírito os fios de ouro que ornavam a formosa cabeça de Cecília…

O tempo passava e Duarte não sabia mais em qual quadro estava. Sem entender bem o motivo, viu o major enrolar o manuscrito e sair do gabinete. E sem ter tempo de pensar, chega um suposto policial com a acusação de que roubara uma chinela turca ornada de diamantes. Instantes depois, cinco homens armados o levam a força para um carro e chegam a uma bela casa. Ao pensar melhor no ocorrido, percebe que sua suspeita estava certa, os homens não eram policiais e acredita que a chinela turca era uma metáfora para o coração de Cecília. Mas acaba percebendo que é muito mais que imaginava: conhece um homem misterioso e ele apresenta sua filha, que por sinal era muito parecida com Cecília, e diz para o bacharel primeiro casar-se com a menina, depois escrever um testamento e em seguida a morte, por veneno ou por uma arma.

Machado nos insere num sonho ficcional e a forma que ele o faz é muito sutil, levando até mesmo o leitor a duvidar e questionar-se o que é realidade e o que é sonho na perspectiva de Duarte. Chegar nesse ponto é necessário, ao final da leitura, voltar em algumas páginas, pois é fácil convencer o leitor que as aventuras que Duarte passa são realmente verdadeiras. Por mais aventureiros que os acontecimentos sejam, eles são narrados de forma convincente. Para definir tal atitude de Machado, podemos recorrer à Aristóteles quando afirma que a tarefa do poeta, diferente do historiador, é mostrar o que poderia ter acontecido, em concordância com o possível, com a verossimilhança.

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