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abril 27, 2013 Falando de Projeto

Projeto Machado de Assis – Teoria do Medalhão


Às vezes me pergunto como ocorre a inclusão de determinadas figuras públicas em nossa sociedade, tanto política quanto filosoficamente falando, fazendo o papel notório de simples objetos de absorção de ideias e acenos de cabeças. No conto Teoria do Medalhão, mesmo criado em um outro século, encontramos as respostas para tais perguntas.

Após o jantar de comemoração de vinte e um anos do filho, o pai na mesma noite deseja falar como dois amigos sobre coisas importantes. Aos vinte e um anos, Janjão possui algumas apólices e um diploma que lhe oferece a oportunidade de entrar no parlamento, na magistratura, dentre outras infinitas possibilidades de carreiras. Seu pai não se importa com a profissão que escolherá, deseja apenas que o filho seja grande e notável, mas se assim não o for, ao menos notável.

Para assegurar o futuro quando for velho ou caso um ofício dê errado, Janjão é aconselhado, através de uma teoria, a se preparar para tornar-se Medalhão, um sonho de seu pai na mocidade. Medalhão é, de acordo com o Michaelis, o indivíduo sem valor real nem talento nem originalidade, cuja importância ou fama provém da habilidade em imitar ou aproveitar o que já encontra feito. Mais diretamente e com detalhes agregados pelo próprio pai, Medalhão é um homem com certa idade, geralmente tal ofício manifesta-se aos quarenta e cinco e cinquenta anos, que adquire a fama e respeito da sociedade. Tornar-se Medalhão, todavia, é preciso abrir mão do próprio intelecto, sem nenhuma imaginação ou filosofia, anulando os próprios gostos e opiniões. Ao longo do diálogo entre pai e filho, encontramos outras dicas para o “ofício” e uma das mais abomináveis foi, claramente, o pai dizer para que o filho deve ser neutro.

– Entendamo-nos: no papel e na língua alguma, na realidade nada. “Filosofia da história”, por exemplo, é uma locução que deves empregar com freqüência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.

É clara a crítica social, com um belo punhado de ironia, que Machado de Assis utiliza em seu conto. O pai de Janjão o instrui a abrir mão de si mesmo, tornando-o algo que, claramente, não é. O Medalhão é o retrato da absorção à opinião da maioria, alguém que abre mão de seus ideais para se transformar em uma mera imagem sem voz. Apesar dos anos terem passado, quantos Medalhões conseguimos ver em nossa sociedade? Eu consigo enxergar muitos.

Se interessou pelo conto? Ele está disponível em Domínio Público, basta clicar aqui e fazer o download.

março 03, 2013 Falando de Conto // Projeto // Projeto Machado de Assis

Projeto Machado de Assis – A Chinela Turca


Machado de Assis é, por si só, um escritor que não precisa de apresentações. Da mesma forma que muitos amam a forma que ele escreve e cria, outros odeiam proporcionalmente. Minha paixão pelo Bruxo do Cosme Velho se fez presente a partir do momento que percebi que ele permite que sejamos co-autores de suas obras, sem perder o caminho traçado, a partir de seus “vazios”. E em A Chinela Turca encontramos, além da interatividade, a relação entre realidade e sonho.

O ano é 1850 e estamos no Catumbi, bairro do Rio de Janeiro, onde o bacharel Duarte recebe a visita, tarde da noite, do major Lopes Alves, velho amigo da família, o que o faz estremecer por dois motivos: primeiro porque era o major, o mais medonho sujeito; e o segundo era que ele se preparava para ver Cecília, a mulher dos mais finos cabelos louros e os mais pensativos olhos azuis, em um baile. O lado bom da visita era que o major era parente de sua amada, um voto seguro, caso precisasse. Entretanto, o major vem avisá-lo que acabara de escrever um drama, proveniente de um “ataque literário”, que acaba até considerando como doença, e gostaria que o bacharel analisasse o trabalho de forma franca.

O drama era dividido em sete quadros, com apenas cento e oitenta páginas. Duarte constatou que não havia nada de novo e o major expressara apenas suas lembranças. Chegando ao segundo quadro, o bacharel percebe que já eram onze horas e não conseguiria mais ir ao baile que veria Cecília. Tomado pela cólera de tal fato e pelo sentimento que “um mau livro é capaz de produzir”, Duarte e o leitor começam a viver o imaginário da obra.

…enquanto aos olhos carnais do bacharel aparecia em toda a sua espessura a grenha de Lopo Alves, fugiam-lhe ao espírito os fios de ouro que ornavam a formosa cabeça de Cecília…

O tempo passava e Duarte não sabia mais em qual quadro estava. Sem entender bem o motivo, viu o major enrolar o manuscrito e sair do gabinete. E sem ter tempo de pensar, chega um suposto policial com a acusação de que roubara uma chinela turca ornada de diamantes. Instantes depois, cinco homens armados o levam a força para um carro e chegam a uma bela casa. Ao pensar melhor no ocorrido, percebe que sua suspeita estava certa, os homens não eram policiais e acredita que a chinela turca era uma metáfora para o coração de Cecília. Mas acaba percebendo que é muito mais que imaginava: conhece um homem misterioso e ele apresenta sua filha, que por sinal era muito parecida com Cecília, e diz para o bacharel primeiro casar-se com a menina, depois escrever um testamento e em seguida a morte, por veneno ou por uma arma.

Machado nos insere num sonho ficcional e a forma que ele o faz é muito sutil, levando até mesmo o leitor a duvidar e questionar-se o que é realidade e o que é sonho na perspectiva de Duarte. Chegar nesse ponto é necessário, ao final da leitura, voltar em algumas páginas, pois é fácil convencer o leitor que as aventuras que Duarte passa são realmente verdadeiras. Por mais aventureiros que os acontecimentos sejam, eles são narrados de forma convincente. Para definir tal atitude de Machado, podemos recorrer à Aristóteles quando afirma que a tarefa do poeta, diferente do historiador, é mostrar o que poderia ter acontecido, em concordância com o possível, com a verossimilhança.

novembro 21, 2012 Falando de Conto // Edgar Allan Poe // O Gato Preto // Projeto

Projeto Edgar Allan Poe – O Gato Preto


Poe inicia o conto “O Gato Preto” avisando ao leitor que não faz questão que acreditemos na história, afinal, nem ele mesmo, muito menos seus sentidos conseguem aceitar o que presenciara. A partir daí, o narrador-personagem passa a se descrever, se mostrando uma pessoa apaixonada por animais e carregou esse amor para vida adulta. Assim, achou uma companheira que possuía o mesmo amor pelos animais e teve uma variedade deles, mas acaba, em sua história, destacando o gato. Seu nome é Plutão e nosso protagonista o descreve de maneira peculiar: um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Com o tempo, nosso protagonista foi mudando por causa da bebida, tornando-se uma pessoa irritada que além de maltratar a mulher, maltratava seus animais, exceto Plutão. Porém, num dia que chegou em casa muito embriagado, pegou o animal no colo e ele o mordeu, acredito que ficou afetado pela rabugentisse do próprio dono. E com raiva pela mordida que recebera, arrancou a órbita do bichano.

Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões frequentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.

O gato ia melhorando, apesar do aspecto horrível que o olho perdido apresentava, não estava sentindo nenhuma dor. Mas, tomado pela perversidade, enforcou o animal. Logo após o ocorrido, sua casa pega fogo e felizmente conseguiu fugir. Entretanto, uma imagem curiosa aparece em uma das paredes da casa: a figura de um gato gigantesco com uma corda enrolada no pescoço.

Assim, com a morte do gato e a aparição na parede, a figura do animal torna-se um símbolo de azar para nosso protagonista. Em certo momento, ele acredita que o gato abriga a alma de uma bruxa e tal ideia é reafirmada quando um segundo gato ocupa o lugar do que havia morrido. Uma das características marcantes relacionadas ao azar é a cor do gato, preta. Apesar do animal ser um símbolo místico em algumas cultura, acredito que o maior motivo do ódio que foi criado por seu dono foi culpa do uso excessivo do álcool. E por culpa deste ódio, que crescia cada dia mais, após matar seu gato e achar um “substituto”, acaba acontecendo algo muito, muito ruim.

O enforcamento do animal pode significar diversas coisas, mas para mim existem três possibilidades: o amor de Poe pelos animais e os maus-tratos, alegoria para uma criança ou até mesmo o assassinato de um escravo. A simbologia da morte de um escravo comparada a morte de um gato negro pode ser ofensiva, não tenho dúvidas, mas na época os donos de escravos os tratavam como animais, poderia fazer o que bem entender, desde ser abusados até mortos. Já como uma alegoria para uma criança, percebemos isso porque o casal não possuía crianças e elas, assim como os animais, estão a mercê dos responsáveis.

Uma coisa curiosa relacionada ao gato, é que seu nome em inglês é “Pluto”, mas se o traduzirmos para o português, vira “Plutão” e “Plutão” é o nome romano de Hades, este, por sua vez, é o deus do mundo inferior e dos mortos. Podemos deduzir que Poe usou este nome para que o animal fosse capaz de usar uma de suas sete vidas e se vingar da pessoa que o maltratou. Outra coisa muito curiosa é que o olho simboliza o pavor de quando tomamos consciência de algo e por causa da culpa pode nos levar a situações aterrorizantes (Chevalier e Gheerbrant, 1998).

No geral, é um conto excêntrico, cheio de pensamentos e atitudes macabras que a mente de um homem doente pode causar. Edgar Allan Poe soube construir um conto com diversos elementos para instigar o leitor, porque ele poderia ter usado um peixinho dourado, um cachorro, mas optou por um gato preto e seu nome deveria ser realmente Plutão porque só assim a obscuridade seria total.

outubro 14, 2012 Falando de Edgar Allan Poe // Projeto

Projeto Edgar Allan Poe – Berenice


Poe nos insere em mais uma atmosfera obscura e com uma mente perturbada, com medos e receios. Através do conto Berenice, conhecemos Egeu, primo de Berenice. Cresceram juntos, entretanto, enquanto ela era cheia de saúde, graciosa e ágil, cheia de energia; ele era frágil. Em algum momento da vida dos dois, uma “fatal doença” acomete Berenice, afeta sua mente e a muda completamente, assim perde toda sua jovialidade e vitalidade que outrora tivera. Egeu, após ver a transformação de sua prima com a doença é afetado por uma loucura/mania onde o enfermo tem uma ideia fixa, a monomania.

Esta monomania, se assim posso chamá-la, consistia numa irritabilidade mórbida daquelas faculdades do espírito que a ciência metafísica denomina “faculdades da atenção”.

O estado de Berenice torna-se um prato cheio para os pensamentos fixos de Egeu. E foi num dia, dentro da biblioteca, onde achava estar sozinho, viu sua prima e viu também seus dentes e isto acabou tornando-se uma nova ideia fixa em sua mente, tornando uma verdadeira cobiça.

Eles, somente eles estavam presentes aos olhos de meu espírito, e eles, na sua única individualidade, se tornaram a essência de minha vida mental

Berenice morre, sofre um ataque epiléptico. Todos os preparativos para seu enterro estavam terminados ao cair da noite. Egeu se encontra novamente na biblioteca, mas havia feito algo que não se lembrava, sua dúvida aumenta ainda mais ao ver uma caixinha ao seu lado. Quando um criado entra para dizer que o túmulo de Berenice havia sido violado, a morta transfigurada e que a defunta respirava, percebeu que nas roupas de Egeu havia sangue, em seu corpo marcas de unha e ao seu lado uma pá.

Com um grito, saltei para a mesa e agarrei a caixa que nela se achava. Mas não pude arrombá-la; e, no meu tremor, ela deslizou de minhas mãos e caiu com força, quebrando- se em pedaços. E dela, com um som tintinante, rolaram vários instrumentos de cirurgia dentária, de mistura com trinta e duas coisas pequenas, como que de marfim, que se espalharam por todo o assoalho.

O começo do conto tem uma narrativa normal, até mesmo compassada, mas com a morte de Berenice e tudo que a sucede, a narrativa começa a ter uma textura diferente, um teor essencialmente psicológico. O conto “Berenice” tem como foco a mente humana, com toda sua complexidade e obsessão. E é através desta complexidade e obsessão que um jovem fraco, de repente toma coragem para fazer algo completamente inimaginável.É curiosa a forma que Poe brinca com a mente humana. E este é mais um conto incrível!

outubro 06, 2012 Falando de Edgar Allan Poe // Projeto

Projeto Edgar Allan Poe – O Poço e o Pêndulo


Alguns dias atrás, estava passeando pelos canais literários que sigo no YouTube e parei para assistir o vídeo da Tatiana Feltrin que falava sobre livros e contos de terror. Ela falou sobre diversos autores e livros, mas um, em especial, chamou-me mais do que a atenção, me fez lembrar que abandonei e parei de ler obras incríveis: Edgar Allan Poe. Pois é, o cara é um gênio e, como a própria Tatiana comentou no vídeo, ele transforma fatos banais do nosso dia-a-dia em algo medonho e bizarro. Portanto, hoje começa o “Projeto Edgar Allan Poe” onde lerei seus livros, textos e contos. E assim que todas as obras forem lidas e comentadas, escolherei novos autores que deixei passar e me arrependi profundamente disso. Caso vocês tenham sugestões de outros que achariam interessantes aparecerem por aqui, deixem-nas nos comentários. Além disso, a queridíssima da Kênnia do Busílis entrou nesta onda também, então caso vocês queiram aderir ao projeto, sejam bem-vindos!

O primeiro conto lido foi “O Poço e o Pêndulo” e que conto, hein! Narrado em primeira pessoa, tem como pano de fundo a Espanha na época da Inquisição, onde nosso protagonista é julgado, condenado e depois de receber sua sentença é atirado num calabouço, submetido à tortura psicológica. Cansado, acaba dormindo e acorda com comida e água ao seu lado, mas aparentemente tinha algo que o fez cair em sono profundo. Ao acordar, percebe que está dentro de uma sala, amarrado à uma cama. Ao olhar para cima, vê um pêndulo de metal em formato de lâmina que vai descendo lentamente para cair e matar o condenad.

Um conto com um final surpreendente e incrível. Ao ler “O Poço e o Pêndulo”, percebemos que existe uma intensa relação do personagem com os espaços em que aparece. Existe também uma relação com o contexto histórico, como a cidade de Toledo, General Lasalle, dentre outros fatores. Existe também a constante apreensão do nosso protagonista, principalmente por não saber exatamente como será seu fim, por estar em extrema escuridão e dentro de um local fechado.

Anteriormente disse que existe a tortura psicológica e podemos encontrá-la tanto no pêndulo, que desce lentamente para encontrar nosso protagonista e matá-lo, também na escuridão, na claustrofobia, por estar dentro de um lugar fechado, sem ventilação, com umidade, ratos, também o desespero de imaginar onde está e as dúvidas. E eu, como leitora, acabei me angustiando juntamente com o protagonista, porque o espaço criado por Poe nos mostra que a morte é um destino óbvio.

Se você curte obras mais sombrias e obscuras, que brinquem com as inquieações humanas, leia “O Poço e o Pêndulo”.

Aqui você pode conferir a resenha da Kênnia! Ficou demais.

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