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fevereiro 22, 2014 Falando de Resenhas

Em Busca de Um Final Feliz por Katherine Boo


Em Busca de Um Final Feliz

Título: Em Busca de Um Final Feliz
Autor: Katherine Boo
Editora: Novo Conceito
Skoob: Adicione!
Compre o livro: SUBMARINO | SARAIVA* | CULTURA
Classificação: EstrelasEstrelasEstrelasEstrelasEstrelas

Em Busca de um Final Feliz, de Katherine Boo, é um livro brilhantemente escrito. Através de uma forte narrativa, descobrimos como é o dia a dia dos moradores de Annawadi, uma favela à sombra do elegante Aeroporto Internacional de Mumbai, na Índia. A história de seus habitantes nos faz rir e chorar, porque “o que é celebrado neste livro não é o que poderíamos chamar toscamente de ‘o encanto da lama’, mas a riqueza das pessoas que — para o bem e para o mal — compõem um tronco social que está cada vez mais presente no nosso mundo moderno”.

Não sei se já falei para vocês, mas livros que tratam de assuntos relacionados a outros países me fascinam, especialmente quando são sobre países completamente diferentes do nosso, do outro lado do mundo. E Em Busca de Um Final Feliz foi um livro que me encantou de uma forma inimaginável.

Esse é um livro que vai além de uma simples história, é um relato, uma reportagem sobre a favela de Annawadi, localizada ao lado do aeroporto de Mumbai, a cidade mais importante da Índia. Katherine Boo dedicou alguns anos conhecendo pessoas, entendendo suas vidas e o mais incrível é que os relatos que vemos no período de quatro anos são todos verdadeiros, pessoas reais com problemas reais.

Conhecemos muitas histórias, mas a que mais se destaca é a dos Husains, uma família que compra e revende lixo, moradores de Annawadi que têm o desejo de mudar de vida. Abdul é o provedor principal da família já que quando mais novo aprendera o valor das peças, quanto pagar e como negociar, e seu pai, Karam, tem sérios problemas nos pulmões. Zehrunisa era a mãe da família que se lamentava pelos pais a terem casado com um homem doente, mas ainda assim era firme e decidida. O maior passo para se mudarem da favela para um lugar melhor já havia sido dado, o depósito para um terreno em Vasai. Mas tudo muda quando Fátima, vizinha dos Husains, conhecida como Perna Só, tem um ataque de ódio por ver a vida dos vizinhos melhorando e a dela na mesma, tendo que arrumar amantes para suprir suas necessidades como pessoa e mulher, ateia fogo no próprio corpo e diz que fez isso porque os Husains a incentivaram. É a partir de então que vemos todos os pontos que a autora quer mostrar para seus leitores.

O sistema de justiça criminal da Índia era um mercado, assim como o do lixo, Abdul entendia isso agora. A inocência e a culpa poderiam ser compradas e vendidas como um quilo de sacolas plásticas

Um dos principais pontos que temos é a forma que as pessoas conseguem encontrar para ganhar dinheiro. A Índia, apesar de ser uma nação rica, possui altos índices de fome e pobreza, um local fácil de encontrar pessoas que vivam com menos de um dólar por dia. Como conseguimos, num país que está crescendo, encontrar pessoas abaixo da linha da pobreza? Qual o motivo de tanta desigualdade? Seria falta de oportunidades, sonhos, vontade? Não importa se o país tem riquezas, poder para cresce, quando a corrupção impera, tudo fica estático, nada anda. O maior exemplo disso é quando Fátima faz seu relato para a policial e a mesma policial recorre a Zehrunisa para tentar tirar dinheiro dela, dizendo que recolheria depoimentos de vizinhos que prenderia a família inteira. E durante a história vemos inúmeros acontecimentos assim.

Além da corrupção, vemos também como as ONGs funcionam em locais como Annawadi. Nada realmente acontece e há sempre um interceptor para fraudar, pensando apenas no próprio bem-estar, deixando as outras pessoas em segundo plano. Asha, uma mulher que quer ser a Senhoria da Favela, é um grande exemplo disso. Uma mulher que está se misturando com a política, utilizando o local e as pessoas de onde mora, para se beneficiar.

Por toda a Índia, os pobres eram os únicos que levavam o voto a sério. Era o único poder real que tinham.

Annawadi não é uma favela tão grande, já que abriga entorno de 3 mil pessoas. É um local protegido por um grandioso muro, com um lago de esgoto, onde porcos se banham, as pessoas correm perigo iminente de contrair dengue, icterícia, tuberculose e muitas outras doenças, e o ar é totalmente poluído. Você pode imaginar como é o sistema de saúde que atende essa população? Praticamente inexistente. Além disso, se for necessário pagar por remédio, como fariam? É melhor até mesmo morrer de uma vez por todas. Água era difícil de conseguir, as escolas iam até a 8ª série e eram recheadas de professores faltosos, as mulheres eram vistas como objetos que deveriam ser sempre submissas… E a perspectiva que a autora nos apresenta de tais coisas são tão fortes, tão palpáveis e reais, que são difíceis de se esquecer.

Depois de terminar de ler Em Busca de Um Final Feliz, foi impossível não pensar no quão o Brasil está chegando a esse estado deplorável, cheio de problemas que muitas pessoas se negam a enxergar. Eu sei que não são problemas fáceis de serem resolvidos, mas estamos num país relativamente novo, que teria todas as possibilidades de se tornar rico em todos os aspectos, mas com hospitais péssimos, corrupção, falta de oportunidades e muitos outros fatores tornam toda mudança quase impossível.

Esse não é um livro sobre humanidade ou coisa parecida, para mim funcionou mais como algo que mostra no que a pessoa pode se tornar para enfrentar a sociedade que está inserida e contornar as situações que, muitas vezes, são impostas. Katherine Boo nos mostra que as pessoas muitas vezes querem mudar, serem honestas, mas o mundo em que elas vivem as transforma da água límpida em água de esgoto.



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Uma resposta para "Em Busca de Um Final Feliz por Katherine Boo"

Raquel Moritz - 24 fevereiro 2014 às 15:37

Oi Thaís!

Nossa, nem imaginava que esse livro era uma história verdadeira. Eu gosto dessa temática, acho que realmente toca o ser humano. Não somos cegos, embora muitas vezes a gente ache que está tudo bem, e esse tipo de história sempre te tira do lugar comum.

Não sabia que você gostava tanto de livros assim. Vou deixar a dica de ‘Mulheres de Cabul’. Ele é um relato fotográfico, na verdade, um pouco diferente dessa proposta, mas é tocante também.

Beijo, querida ♥

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