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janeiro 20, 2014 Falando de Resenhas

Habibi por Craig Thompson


Habibi

Título: Habibi
Autor: Craig Thompson
Editora: Cia. das Letras
Skoob: Adicione!
Compre o livro: SUBMARINO* | SARAIVA | CULTURA
Classificação: EstrelasEstrelasEstrelasEstrelasEstrelas

Habibi é a saga de dois escravos fugitivos, unidos e separados pelo destino, vivendo no limite que separa a tradição da descoberta. Dodola, uma garota perspicaz e independente, foge de seus captores levando consigo um bebê. Eles crescem juntos no deserto, sozinhos em um navio naufragado na areia. Em meio a sentimentos cada vez mais conflitantes, os dois passam o tempo contando histórias.

Eu, que nunca li muito HQ, tenho encontrado o incômodo gostoso que muitas histórias podem nos oferecer nessas incríveis páginas cheias de desenhos. Assim como em Persépolis, encontrei em Habibi o mesmo incômodo, uma enxurrada de cultura e uma realidade, mesmo que desenhada, muito crua que atinge o leitor como um soco no estômago.

Em Habibi conhecemos a história de Dodola e Zam (Habibi). Dodola, quando tinha apenas nove anos fora vendida para um escriba que copiava manuscrito, o sagrado Corão e os ahadith, As Mil e Uma Noites e obras de grandes poetas. E foi assim que ela aprendera a ler e escrever. Mas três anos depois, ladrões invadem a casa deles matam o escriba e levam Dodola. Ela vira uma mercadoria e seria vendida como escrava e para evitar a morte de um menino, acaba adotando-o. Ao chegar à feira, ela consegue uma brecha e foge com o pequeno menino de três anos para o deserto e começam a viver dentro de um barco.

Dodola, por nove anos, ensina tudo o que sabia para Zam e provia, da melhor forma possível, mantimentos para que eles pudessem sobreviver ao deserto. Mas um dia, por motivos que são muito mais emocionantes ler que contar, eles se separam.

Aparentemente este é um livro simples, mas Habibi não é apenas uma história de encontros e desencontros, é a história sobre um país, uma religião, a história de uma mulher num mundo machista que a vê como objeto, a história de um negro sendo escravizado social, moralmente e até por si mesmo. Habibi é a história que tudo o que você pode ter medo ou receio de ouvir num formato sublime.

O autor conseguiu intercalar ensinamentos do Al Corão, da Bíblia e as histórias de As Mil e Uma Noites tornando o livro ainda mais recheado de ensinamentos. Não pense que tais referências sejam vazias, pelo contrário, são cheias de significado não só para nós, como para a história e principalmente para os personagens. É importante ouvir, a oralidade ainda é fundamental na cultura árabe.

Habibi

Estou apaixonada por Craig Thompson, apaixonada pelo que ele criou. Os personagens desta história não são simplesmente rabiscos, são pessoas de verdade, que aqui ou do outro lado do mundo passam ou passaram por algo semelhante à vida de Dodola e Zam. Dodola perdera sua infância aos nove anos, quando foi vendida pelo pai e mais um pedaço lhe foi arrancado quando perdera sua virgindade. Mas a perda da infância dela não para por aí, a cada página virada e a cada momento que vemos, um pedaço dela se vai. Zam também perdeu sua infância de certa forma, mas Dodola queria lhe dar ao menos uma parte daquilo que lhe roubaram. Ela o adota e apesar das dificuldades que enfrenta, não o abandona, como a mãe biológica dele fez. Ambos são personagens palpáveis, reais, complexos e construidos de uma forma sublime, ímpar.

As ilustrações que encontremos são verdadeiras obras de arte, cada uma, em cada página. Li esse livro duas vezes, a primeira para conferir a história, a segunda para passear calmamente pelas linhas que Thompson criou e posso afirmar que não me cansaria de olhar novamente cada imagem mais uma vez pois veria mais um detalhe que não tinha visto antes. Ele não apenas criou desenhos, criou histórias que se misturam com a escrita em árabe, que se combina com cada cenário e com cada momento. Para você ter noção da proporção desse trabalho gráfico magnífico, o autor demorou oito anos para concluir este livro.

O que mais me ganha nesse tipo de leitura é que eu consigo conhecer uma nova cultura, novos hábitos, diferentes problemas, diferentes escolhas, mas também consigo equiparar ao que vivemos ainda hoje. Vemos em Habibi a ambição humana, o que ela é capaz de fazer, tento para o meio em que as pessoas vivem, como uns para os outros, em relação à escravidão principalmente. Vemos também como a mulher é desvalorizada e vista como uma mero objeto em muitas culturas até os dias de hoje. E como disse, vemos uma história que vai muito além de querer encontrar e procurar. Temos uma história em que o amor pode nascer por uma pessoa que não é nem fruto de nós mesmos, mas que é possível cultivá-lo e apesar de todas as dificuldades encontramos formas de cuidar uns dos outros.

Infelizmente não sei se consegui colocar tudo o que senti e ainda sinto depois de ter lido Habibi. A única coisa que preciso partilhar com vocês é: leia-o. Foi o melhor soco no estômago e sacudidela que ganhei na minha vida. Esse é um trabalho incrível e que vale a pena ser lido.



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7 Respostas para "Habibi por Craig Thompson"

Ana - 21 janeiro 2014 às 23:52

Amei a resenha, parece ser ótimo!
Thaís, você poderia fazer um post sobre o curso de Letras! Tenho muita curiosidade sobre o curso e como o blog é literário, muitas pessoas amarão conhecer um pouco mais sobre ele. Obrigada!

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Thaís Lemos Cavalcante
janeiro 22nd, 2014 em 10:19
respondeu:

@Ana, amei a ideia! Pode deixar que organizarei um post e um vídeo sobre. Muito obrigada! <3

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Michelle - 22 janeiro 2014 às 11:35

Oi, Thaís!
Eu também sou novata nesse mundo de HQs, mas tenho me interessado e surpreendido cada vez mais. Quero muito ler Habibi. Ainda mais que tem tudo a ver com meu projeto de leitura de 2014: As mil e uma noites.
Adorei a dica 😉
bjo

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Raquel Moritz - 22 janeiro 2014 às 12:13

Obrigada por explicar de forma clara do que se trata esse Habibi. Já vi algumas resenhas muito confusas que não deu pra captar o sentido da coisa. Gosto muito de HQs, pretendo ir atrás desse aí então 😀

Ah, e tbm já li HQ duas vezes (seguidas, basicamente) pq o roteiro e a arte são tão bons que você se vê negligenciando um em prol do outro na primeira vez. Fiz isso com Sinal e Ruído, valeu a pena.

Beijo!

Raquel
http://www.pipocamusical.com.br

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Laura Kienen - 22 janeiro 2014 às 13:39

Uau, que livro e que resenha lindos Thaís. Nunca li nenhuma HQ, só quando era criança, e pretendo começar a ler. Adorei Habibi, já anotei para minhas leituras de HQ.

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Mirelle Candeloro - 22 janeiro 2014 às 23:09

Nossa, que ilustrações lindas. Aparenta ser uma HQ bem completa, aliando bom conteúdo e mexendo com as nossas emoções. Adorei a dica. Beijos, Mi

http://www.recantodami.com

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Oliveira - 26 janeiro 2014 às 10:56

Como você disse, é bom esse tipo de livro pois conhece outra cultura, país, costumes, crenças e tudo mais. Amo esse tipo de leitura.

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