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janeiro 30, 2014 Falando de Resenhas

Max e os Felinos X As Aventuras de Pi


Há alguns meses, com o lançamento de As Aventuras de Pi aqui no Brasil, pela Nova Fronteira, ressurgiu o debate sobre o plágio que Yann Martel fez em relação à obra de Moacyr Scliar. Desde então, fiquei intrigada porque queria saber o que o autor que plagiou tinha, para ganhar Booker Prize de 2002, que o autor brasileiro não tinha.

Antes de mais nada devo começar a dizer que Max e Os Felinos foi lançado em 1981, já As Aventuras de Pi ou A Vida de Pi foi lançado em 2001. Desde o começo dessa polêmica, Yann Martel havia afirmado que viu uma resenha negativa sobre o livro de Scliar e que sabia que conseguiria aproveitar muito melhor a ideia que o autor que a escrevera. Em 2002, com diversos jornais, nacionais e internacionais, foi descoberto que nenhum jornal de grande porte havia escrito uma resenha negativa sobre a obra de Scliar e Martel ficou sem chão, sem ter onde se embasar. Como a gota d’água, uma de suas afirmações sobre a obra de Scliar foi: Como uma premissa brilhante pôde ser arruinada por um escritor menor. Deixo aqui então, desde o início, minha tristeza quanto à prepotência deste autor.

Apesar de ter ficado um pouco triste e indignada com as palavras de Martel, li ambos os livros sem nenhum preconceito ou raiva, tentei ser o mais imparcial possível.

Max e os Felinos x As Aventuras de Pi

Em Max e Os Felinos, conhecemos a história de Max Schmidt, que morava em Berlim, em 1912, durante o início do nazismo. Ele era filho de um peleiro, que aproveitava todas as oportunidades para importuná-lo, e ajudava na loja do pai, mas tinha um medo enorme do tigre empalhado que lá havia. Além de nutrir um medo sem igual pelo tigre, nutria um amor proporcional pelo Brasil que via nos livros que lia quando pequeno.

Apesar deste banquete, ou justamente por causa dele, o jaguar tinha um ar benigno, bem humorado até, muito diferente do tigre de Bengala; daí ter Max ficado com a impressão que o Brasil era um país alegre, feliz. Um dia pretendo conhecer este lugar tão encantador, escreveu em seu diário.

Max se transforma num rapaz crescido e se envolve com a esposa de um nazista e se vê obrigado a fugir da pátria, dos pais e de tudo que conhecia para o Brasil. A mulher do nazista ajudara em tudo para que sua fuga ocorresse bem, preparou os papéis necessários, arrumou uma embarcação e tudo parecia que daria certo. Exceto quando o navio que estava, afundou e se viu dentro de escaler com um jaguar dentro.

Já em As Aventuras de Pi, conhecemos Piscine Molitor Patel, um indiano que morava em Pondicherry e ajudava o pai, que havia desistido da área de hotelaria e havia aberto um zoológico. Pi decidiu ter três religiões diferentes: hindu, católico e muçulmano. Um outro fator importante que podemos destacar é que a Índia, em 1970, período que vemos boa parte da história, não estava num bom momento, onde a senhora Gandhi, que era a primeira-ministra e declarou que haveria um período onde os processos democráticos e as liberdades civis seriam subvertidos e suspensos.

Estava sozinho e órfão, no meio do Pacífico, pendurado num remo, com um tigre adulto à minha frente, tubarões passando por baixo e uma tempestade desabando sobre mim.

O pai de Pi resolve que a melhor coisa a se fazer é se mudar para o Canadá, começar uma nova vida. Então as papeladas para levar os animais para outro pais ou vendê-los são todas preparadas, embarcam num navio, mas, sem saber o motivo, no dia 2 de julho de 1977 o navio afunda. Pi, que estava com dezesseis anos, se salva porque fora jogado dentro de um bote e acaba se vendo junto de uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre.

Tratando-se de interpretação, para mim, em ambas histórias temos a labuta que imigrantes passam, tendo o naufrágio e a sobrevivência como metáfora para isso, e o fato de enfrentar os próprios demônios, representado pelos felinos. A essência de ambas as histórias são as mesmas, um rapaz que perde a família, se torna um náufrago e está acompanhado de um felino extremamente mortal. O que muda de um livro para o outro é o significado que cada autor tem o desejo de passar. Em Max e Os Felinos Scliar cria metáforas incríveis para o nazismo e a ditadura. Esse é um livro que tem um peso político, desde a fuga de Max para o Brasil por causa do nazismo, até o final de sua vida. Já em As Aventuras de Pi vemos que o objetivo de Martel é, além de criar uma atmosfera política por causa de tudo o que o país estava passando em 1970, ele tem a religião como base. Pi, contrariando as ideias de todos, tinha três religiões diferentes e para ele, todas elas juntas faziam sentido.

Não posso deixar de lado e nem negar que a obra de Martel tem muito mais detalhes, em algumas partes detalhes até demais, mas que tornam a história muito mais rica, visualmente falando. Suas conotações religiosas também são lindas, são palavras incríveis de se ver e vemos em um único rapaz crenças tão diferentes entre si, em harmonia. Os dados espaciais e o conhecimento sobre os animais que o autor demonstra ter e passa para seu personagem são incríveis, sem dúvida foi um trabalho de pesquisa gigantesco e, ao meu ver, são bastante precisos. Mas para mim, um dos maiores erros desse autor foi não ter admitido desde o início, dado crédito, sido honesto ao dizer que bebeu muitos litros da água de Scliar. E uma outra coisa que me incomodou foi que em muitos momentos, durante a leitura de As Aventuras de Pi, eu me pegava pensando qual era o objetivo de taaaanta informação que tínhamos.

Mas em tão, Thaís, qual você escolhe? Bem, o meu favorito entre os dois foi Max e Os Felinos, este sim mereceria um prêmio. Scliar, apesar de ter sido rápido e direto em seu livro, trata de um assunto que conseguimos entender facilmente seus motivos, suas metáforas e tudo o que quer nos passar de maneira simples e direta. E, ao invés de tentar convencer o leitor de algo, ele deixa no ar algo para que possamos refletir.



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3 Respostas para "Max e os Felinos X As Aventuras de Pi"

Kamilla Evely - 30 janeiro 2014 às 15:14

Ainda não li Max e Os Felinos, mas já sabia que o autor de As Aventuras de Pi tinha se “inspirado” nele, e realmente dá um desprezo pelo autor só pela prepotência dele. Não sabia que o enredo de Max e os Felinos era voltado mais pra esse lado, agora fiquei bem mais curiosa pela leitura. Já li As Aventuras de Pi, inclusive, e gostei. Só que achei bem desnecessários comentários do autor, ele poderia ter dados os crédito logo e não ter falado tanta merda. Se era tão ruim, porque ele pegou a base daquela história e construiu a dele? Mas enfim, adorei em As aventuras de Pi as mensagens passadas. Mas se fosse só pelo autor, nem… fez um livro com mensagens tão lindas, mas na vida real foi tão prepotente. Irônico. rs E vou tentar ler Max e os Felinos, assim que possível. Adorei a resenha! =))

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Cássia - 30 janeiro 2014 às 15:26

Oie!

Nunca tive muita vontade de assistir ‘As aventuras de Pi’, muito menos de ler o livro. Já tinha ouvido falar sobre a história do plágio e etc, mas nunca fui pesquisar para descobrir alguma coisa sobre o assunto. Achei muito interessante você ter lido as duas obras e comparado. Ao ler sua postagem devo admitir que, assim como você, achei a história de ‘Max e os felinos’ muito mais realista e de forma clara e direta.

Beijos
http://www.procurei-em-sonhos.com

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Raquel Moritz - 01 fevereiro 2014 às 11:17

Oi, querida! 🙂

Então, como eu estava conversando com você esses dias, gostei muito da sua resenha por um motivo muito simples: todo mundo já sabe que a história é parecida – e dizem isso quando comparam livro A com livro B -, mas você ˜agregou ao camarote˜ ao fazer o comparativo de contexto em que ambas as obras foram escritas.

Como não sou muito fã do filme “As Aventuras de Pi” e daquela coisa de esfregar o significado na minha cara no final do filme, já estou mais inclinada à história do Scliar. Tenho o livro lá em casa, uma edição linda e maravilhosa de capa dura da L&PM, e queria ter lido no ano passado, mas ficou pra 2014. Talvez com meu interesse pelos aspectos das Guerras Histórias, eu vá entender melhor o que o Max passou.

Beijo grande pra tu, pequena <3

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