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junho 26, 2013 Falando de Resenhas

O Oceano no Fim do Caminho | Neil Gaiman


O Oceano no Fim do Caminho

Título: O Oceano no Fim do Caminho
Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Skoob: Adicione!
Compre o livro: SARAIVA | CULTURA
Classificação: EstrelasEstrelasEstrelasEstrelasEstrelas

Foi há quarenta anos, agora ele lembra muito bem. Quando os tempos ficaram difíceis e os pais decidiram que o quarto do alto da escada, que antes era dele, passaria a receber hóspedes. Ele só tinha sete anos. Um dos inquilinos foi o minerador de opala. O homem que certa noite roubou o carro da família e, ali dentro, parado num caminho deserto, cometeu suicídio. O homem cujo ato desesperado despertou forças que jamais deveriam ter sido perturbadas. Forças que não são deste mundo. Um horror primordial, sem controle, que foi libertado e passou a tomar os sonhos e a realidade das pessoas, inclusive os do menino.

O Oceano no Fim do Caminho é um dos lançamentos da Editora Intrínseca e é uma grande promessa, já que foi escrito por Neil Gaiman, mesmo autor de Sandman e Coraline, e é seu primeiro romance adulto desde Os Filhos de Anansi. Em O Oceano no Fim do Caminho entramos de cabeça numa verdadeira viagem ao passado e em lembranças pela perspectiva de um homem já mais velho. Mas para nós, meros leitores, temos uma viagem através das metáforas criadas por Gaiman.

Um homem retorna para Sussex, cidade onde morava, para um velório, mas acaba sendo atraído e é conduzido, de alguma forma, para a casa onde morava. Chegando lá, não encontra exatamente o que buscava, então acaba seguindo para a fazenda Hempstock e percebe que suas lembranças do que acontecera com aquele lugar e as pessoas que moravam ali não eram totalmente claras. Mas tudo o que acontecera quando tinha sete anos começa a ser lembrado a partir do momento que senta-se num banco em frente ao lago da fazenda, ou melhor, ao oceano de Lettie.

– Achei que você tinha dito que era um oceano – falei. – É só um lago, na verdade.
– É um oceano – insistiu ela. – Nós o atravessamos quando eu ainda era bebê, quando viemos da velha pátria.

Na fazenda Hempstock moravam três mulheres, Lettie, com onze anos, Ginnie e a velha senhora Hempstock. Ele as conheceu no dia em que o minerador de opala, que vivia em sua casa e morava em seu quarto, foi encontrado morto no carro da família. A partir de então seus dias seriam diferentes. E a mudança se inicia através de um sonho, quando sonha estar engasgando com uma moeda e ao acordar, para sua surpresa, aquilo está realmente acontecendo. Lettie sabe o que está acontecendo e, por mais estranho que pareça, a morte do minerador de opala está ligada àquilo e alguém está tentando dar dinheiro para as pessoas.

As mulheres de Hempstock sabem exatamente onde procurar a responsável pelos estranhos acontecimentos e mesmo a velha Hempstock aconselhando que era melhor o rapaz não ir com Lettie, ele vai. E quando parecia tudo estar bem, eles encontram um monstro. E, apesar da menina dizer para o narrador não soltar a mão dela, por um breve momento ele a solta e o monstro coloca um verme em seu pé.

Num primeiro momento, achei que estava olhando para uma construção qualquer: algum tipo de barraca, do tamanho de uma igreja do interior, feita de uma lona rosa-acinzentada que tremulava com as rajadas do vento de tempestade, sob aquele céu alaranjado – uma estrutura desbotada envelhecida pelo clima e rasgada pelo tempo

O narrador retira o verme do pé, sem contar nada para ninguém, mas ainda assim fica um pedaço lá. E o que era um simples verme, se torna uma pessoa: Ursula Monkton, a nova governanta da família do narrador e responsável por amedrontar ainda mais seus dias. Sua única esperança são as mulheres Hempstock.

É engraçado que algumas partes da história traz sutis referências. Por exemplo, quando o pé do narrador está com o verme, algumas páginas mais para frente, descobrimos que o mesmo verme abriu um buraco em seu coração. Pela reflexologia, uma massagem feita nos pés, o ponto que Gaiman descreve é exatamente onde é o local do coração. Além disso, quando eles encontram o monstro, Lettie usa uma vara de aveleira e essa árvore é considerada mágica, alguns acreditam que suas raízes tocavam o mundo inferior. Os povos celtas possuíam varinhas desta árvore, era um símbolo do poder do druida.

Podemos encontrar uma pitada de fantasia, mas ainda assim Gaiman dá um banho frio de realidade. Em um determinado momento, o narrador se recusa a comer o que Ursula preparara e o pai chega ao seu limite, é aí que vemos nosso personagem sem medo do escuro, sem monstros e sem a fantasia dos livros que ele tanto amava, vemos um pai tentando afogar o próprio filho numa banheira, um filho com medo da morte, tentando agarrar-se ao único fio de esperança que tinha: a gravata do próprio pai.

Tenho certeza de que cada pessoa verá esse livro de uma forma, mas o mais interessante é que a mudança e os significados são claros, mas é difícil exteriorizar alguns sentimentos que senti ao ler O Oceano no Fim do Caminho. Uma simples resenha não resumirá tudo o que senti pela história. Apesar de ser narrado pela visão de uma criança, você se sente praticamente sendo o personagem e sentindo o que se passa com ele. Gaiman continua sendo Gaiman!

– Nada nunca é igual – respondeu ela. – Seja um segundo mais tarde ou cem anos depois. Tudo está sempre se agitando e se resolvendo. E as pessoas mudam tanto quanto os oceanos.

Este post era para ter saído no dia 26, dia que foi iniciada a semana Neil Gaiman com a editora Intrínseca, entretanto, com a instabilidade da hospedagem onde o blog estava, isso não foi possível, infelizmente.



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4 Respostas para "O Oceano no Fim do Caminho | Neil Gaiman"

Jessica Kayne - 29 junho 2013 às 23:12

Que legal! Assim que vi a notícia do livro fiquei com vontade de ler, agora lendo essa resenha fiquei com mais vontade! hahah beijão 🙂

Responder

Amanda - 30 junho 2013 às 20:31

O Neil Gaiman é, para mim, um dos melhores autores desses últimos 25 anos. Esse foi o primeiro livro que você leu dele? Tem planos de ler outros??

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Marco Antonio - 01 julho 2013 às 16:36

Olá Thaís,

Não li nada do autor ainda, mas esse livro esta na minha lista de desejados e sua resenha me deixou bem curioso….parabéns…abraços.

devoradordeletras.blogspot.com.br

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Os Filhos de Anansi por Neil Gaiman - Pronome Interrogativo - 01 setembro 2015 às 11:04

[…] ele pode ser. O primeiro contato que tive com ele, e confesso que demorei muito para isso, foi em O Oceano no Fim do Caminho. E para o segundo livro de Gaiman, escolhi Os Filhos de […]

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