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novembro 16, 2014 Falando de Resenhas

A Vez de Morrer por Simone Campos


A Vez de Morrer

Título: A Vez de Morrer
Autor: Simone Campos
Editora: Companhia das Letras
Skoob: Adicione!
Onde comprar: CULTURA | AMAZON | SARAIVA | SUBMARINO*
Classificação: EstrelasEstrelasEstrelasEstrelasEstrelas

Quando Izabel voltou a passar seus fins de semana em Araras, a casa da família estava praticamente abandonada. Desde a morte do avô, Izabel e sua mãe pouco se interessaram pelo lugar. A mãe, inclusive, sempre achou que a casa precisava ser vendida. Nas duas últimas décadas, a região serrana do Rio de Janeiro se convertera num veraneio para ricos e famosos, e pouco lembrava a Araras de antigamente, com seus sítios e chácaras familiares. O terreno, hipervalorizado como tudo no Estado do Rio, acertaria de vez a vida das duas. O que poderia vir a calhar, principalmente para Izabel, que vem descobrindo na pele as agruras de trabalhar como freelancer. Entre pagamentos atrasados e a escassez generalizada de serviços, pouco resta a ela senão distrair a cabeça na casa de Araras. E um fim de semana na serra logo vira outro e outro e outro. Aos poucos, o ar de abandono vai dando lugar a uma casa viva, como se aquelas ruínas estivessem sendo reconstruídas pela memória de Izabel. Sem perceber, ela se vê praticamente morando na serra.

A Vez de Morrer é um romance bastante peculiar. Uma vez que comecei a leitura, não sabia exatamente onde a autora queria chegar, de fato, mas depois de algumas páginas, de conhecer algumas características da personagem principal e das pessoas que a rodeavam, acabamos entendendo seu objetivo.

Izabel é uma designer e estava morando no Canadá quando recebeu a notícia que o avô, que morava em Araras, havia morrido. Izabel volta para o Rio de Janeiro, começa a trabalhar na Vale e fica morando com a mãe, mas começa a visitar o sítio que tinha herdado. No início, precisou fazer grandes reparos para deixá-lo habitável, mas depois as visitas eram mais para uma manutenção. A vida na pequena cidade e a necessidade de um lugar para chamar de seu foram atraindo Izabel e então ela resolve mudar seus hábitos.

Depois de adolescente, quase não ia mais. Preferia praia. Quer dizer, na época do Ivan até vinha, trepar atrás das moitas. Mas isso fazia anos, e ela sem carro próprio nem disposição para se arrastar para lá. Aí, foi viajar. Aí, o avô morreu.

Nas idas ao sítio, Izabel conhece muitas pessoas que também conheciam o avô e esta foi uma oportunidade de saber como ele se portava, porque foi para lá por não aguentar a saudade que a esposa havia deixado. Mas estas pessoas que Izabel vai lidando ao longo da história só tornam a narração mais rica em detalhes, cada personagem atribui uma nova característica e contribui para nossa própria conclusão do livro.

Araras não é um lugar essencialmente bucólico, já que o livro se passa nos dias de hoje. A autora adiciona a questão religiosa, por ser uma área cheia de novas igrejas e denominações de todos os tipos e gostos, coloca também a questão de uma nova forma de se empregar, onde os jogos podem ser uma fonte de renda, mas também, ainda com esses elementos, encontramos pessoas bitoladas, que apesar de todas as mudanças, são hipócritas e só sabem julgar.

Ao longo das 256 páginas, passamos praticamente um ano ao lado de Izabel. Conhecemos seus hábitos, suas manias, suas esperanças, mas também conhecemos suas tristezas. O fato do pai ter largado a mãe para viver ao lado de uma mulher mais nova, da pequena Izabel nunca ter se dado bem com a mãe, por gostar de ficar sozinha, por não aceitar que tinha um quê depressivo nas suas atitudes desde de muito nova. Ela também precisa enfrentar a homofobia, já que é bissexual.

Foi fácil perceber que uma das vertentes do texto era o relacionamento. A forma como nos relacionamos hoje, através das redes sociais e aplicativos, mas principalmente como as pessoas ao redor julgam somente por aquilo que acham que sabem. E esse foi um ótimo ponto a ser tratado, já que Izabel tem um estilo de vida diferente das pessoas de Araras, que são bastante conservadoras e isso, o ser diferente, os assustava. O choque cultural, mesmo ela sendo brasileira, foi grande pois vivia no Canadá onde a liberdade de ser como quisesse se mostrava muito maior e muito mais fácil de lidar.

A Vez de Morrer

Simone escreve de uma forma única. A autora trata de assuntos polêmicos, mas de uma forma verdadeira, nua, crua, sem a magia da Disney que muitos autores criam, algo realmente maduro. Isso é legal, porque todos somos humanos e temos nossos problemas e desafios. A Vez de Morrer não é um livro complexo, mas é bom lembrar-se que muitos autores usam elementos do próprio tempo para descrever nossas atitudes e realidade, como a própria Simone o fez. Além disso, a autora trata de algo que vem sendo muito recorrente e podemos ver em outro livro, também da Companhia das Letras, o Dias Perfeitos, do Raphael Montes, que é a fuga da cidade. A protagonista tem 25 anos, não é casada, não é rica, mas quer ser independente e ter o próprio local para viver sozinha, mas é algo bem difícil, já que os preços dos imóveis estão cada vez mais altos. Convenhamos, essa é uma realidade que muitas pessoas da idade da Izabel e até mesmo da minha, passam. É por isso que o êxodo urbano pode ser a chave para uma possível independência.

Essa é aquela leitura que tem elementos palpáveis, mas a autora soube tratar de uma forma tão boa que se tornaram leves. Se você gosta de livros com personagens que são quase de carne e osso, essa é uma boa pedida. Não é um livro feito para todas as idades, acredito que este poderia ser quase um new adult brasileiro, tratando de temas pertinentes para nossa sociedade.

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2 Respostas para "A Vez de Morrer por Simone Campos"

Yasmin - 18 novembro 2014 às 21:16

Oi! Caraca, imaginei alguém morando tão longe e voltando a uma pequena cidade. Bem interessante!
Meu! Há eras não lia “trepar” em texto nenhum! Hahahha! Maneiro!
Abraços, Min.

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Rota dos Livros: A Vez de Morrer - Parte 1 - Pronome Interrogativo - 22 novembro 2014 às 16:47

[…] livro e visitá-los. E o primeiro livro que escolhi foi, a última resenha que fiz aqui no blog, A Vez de Morrer da Simone […]

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